quarta-feira, 8 de maio de 2019

Os Sete Minutos Irving Wallace. «Raramente encontrava oportunidade de falar com um constituinte e nunca entrara numa sala de tribunal, a arena que tanto apreciara nos seus dias de Instituto. Esperavam que aplicasse as suas horas livres em participar de actividades cívicas»

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«(…) Finalmente o director do Instituto mandou chamar Barrett para uma entrevista particular. O director falou e Barrett ouviu, assombrado. O seu pedido para se iniciar uma investigação, a ser continuada por acção judicial ou audiência, fora rejeitado pela junta administrativa. As provas tinham sido consideradas demasiado inconsistentes e, ademais, oh, ademais, simplesmente não era a espécie de caso bem definido em que o Instituto desejasse ver-se envolvido. A incredulidade e espanto de Barrett duraram apenas quarenta e oito horas. Por fim, após discretas averiguações, descobriu a verdade. Um dos grandes patrocinadores e principais contribuintes do Instituto era o próprio laboratório farmacêutico que tentara denunciar. No dia seguinte, Mike Barrett pedia a demissão do quadro de funcionários do Instituto de Utilidade Pública. Abe Zelkin, que sofrera decepção semelhante, demitia-se pouco tempo depois.
E então cada um deles tivera de fazer a sua escolha. Barrett lembrava-se perfeitamente. Zelkin foi o primeiro: mudou-se para a Califórnia, sendo admitido na Ordem, e ocupando um cargo na sucursal de Los Angeles da União de Liberdades Civis Americanas. Barrett, porém, tornara-se cínico de mais pelas realidades da vida, para seguir o exemplo de Zelkin. De modo que optou por algo bastante diverso. Quando não se pode lutar, a gente alia-se. Aliou-se ao mundo do poder, dos grandes negócios, das grandes administrações. Se queria continuar como benemérito, iria concentrar-se em praticar o bem de uma só pessoa: ele mesmo. O nome do jogo dos adultos era dinheiro. Também seria adulto. Significava dizer adeus a todos os salários de oito mil dólares anuais e às gratificações de seja-fiel-a-si-mesmo. E dar boas-vindas a uma nova vida de dezoito mil dólares anuais e a um objectivo diferente, que era: tornar-se, por todos os meios, por osmose, por prática, por associação, um dos Tais, um dos poderosos. A vida nova começou com um cargo de sócio secundário de uma vasta banca de advocacia na Madison Avenue, uma colmeia de quarenta advogados, especialistas em tratar de sociedades anónimas. Tinham sido dois anos tediosos. O trabalho era técnico, pesado, monótono. Raramente encontrava oportunidade de falar com um constituinte e nunca entrara numa sala de tribunal, a arena que tanto apreciara nos seus dias de Instituto. Esperavam que aplicasse as suas horas livres em participar de actividades cívicas e culturais nova-iorquinas. Como prescreviam os decanos da firma. As oportunidades de progresso económico significativo eram escassas. E como se sentia miserável, irrequieto e mal-humorado, levava também uma vida social limitada e pobre. Tivera duas relações amorosas, a primeira com uma bonita morena divorciada, a segunda com uma ruiva inteligente, manequim de modas, e embora ambas houvessem sido fisicamente satisfatórias, não o satisfizeram em nenhum outro sentido. Como se entediava consigo mesmo, entediava-se também na companhia alheia.
A sua situação começou a ficar mais clara. Tentara passar para o outro lado, para parar de os combater, para se aliar a eles, para se transformar num deles. Ah, eles acolhiam cada Fausto de braços abertos, aliciando com deslumbrantes promessas, permitindo que todos comessem brioches em lugar de pão, e depois designavam-nos para trabalhos forçados na masmorra da lei das sociedades anónimas, consolidações de empresas e arrecadações de impostos; e jogavam a chave longe. Sim, ficou mais clara. Podia servir os poderosos, mas não era fácil aliar-se a eles, porque não havia lugar suficiente lá em cima, porque alguém tinha de os servir e porque a magia que irradiavam era realmente inassimilável. Ou pelo menos assim parecia a Barrett, no auge do desespero, naquela época. Precisava de uma mudança drástica e, um dia, a possibilidade de mudar apresentou-se. Numa das cartas que lhe escrevia mensalmente, Abe Zelkin mencionou os vários cargos bem remunerados que se ofereciam a advogados hábeis e experientes em Los Angeles. O próprio Zelkin recebera diversas propostas, sem aceitar nenhuma, embora reconhecesse que uma ou duas tinham sido magníficas e até fascinantes. A sedução da Califórnia, a partir de então, cresceu na imaginação de Barrett e, pouco tempo depois, tomava a decisão e fazia as malas». In Irving Wallace, Os Sete Minutos, Coleção Dois Mundos,  Livros do Brasil, 1988, ISBN 978-972-380-948-0.

Cortesia de CDMundos/LdoBrasil/JDACT