quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

O Último Papa. Luís Miguel Rocha. «O carro negro de vidros escuros..., não lhe parece nada inocente, muito pelo contrário. E há qualquer coisa nele que a aflige. O que será?»

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Conclave
26 de Agosto de 1978
«(…) Não é razão suficiente para tanta paranóia; mas desde que o policial do aeroporto lhe dissera que havia um problema com o seu passaporte, ao qual se pode somar o facto de a mala ter sido aberta em algum lugar entre o Aeroporto da Portela, em Lisboa, e Heathrow, caso para resolver no dia seguinte, embora possamos afirmar que tempo não será algo que Sarah Monteiro vá ter de sobra nos próximos dias, mais a carta, fez com que o alarme fantasioso de uma conjuração disparasse na sua mente. A carta é que a inquieta, mais do que todo o resto... A carta... Seja como for, os segundos contam, a chamada ainda está no ar, e nem um olá ou outra coisa qualquer. Também não se ouve a respiração do interlocutor oposto; apenas o ruído de uma sirene da polícia. O típico lamento sonoro de emergência ou de Saiam da frente muito habitual em todos os países de primeiro e segundo mundo. Dos de terceiro não reza a história, ou é preferível que assim seja; longe dos olhos, longe do coração. O som irrompe do fone do aparelho e não da rua; pelo menos assim parece à primeira vista, ou escuta, e confirma-se com uma segunda mais atenta. Um carro da polícia passa próximo ao local de procedência da chamada. Um dado importante a quem isso importe. A chamada é interrompida abruptamente: nem um adeus ou um Até logo. Somente um dique súbito a apartar dois locais diferentes, ou nem isso. O lamento sonoro do carro da polícia continua a se fazer ouvir, agora no mundo real, lá fora, na Belgrave Road. Os pirilampos azuis periódicos invadem as cortinas vermelhas fechadas e enchem o piso inferior da casa de Sarah com tons psicadélicos arroxeados.
Curiosa coincidência a dos carros de polícia passando ao mesmo tempo nos dois locais, a origem e o destino da chamada. É de facto curioso... Ou será...? Muita coincidência? Apaga todas as luzes do piso, mergulhando o apartamento na penumbra profusa dos espíritos inquietos. Arrasta criteriosamente o sofá creme de três lugares que está na sala, para o afastar da janela, e então se posiciona junto a ela. Respira fundo antes de abrir uma fresta da cortina, nada muito acentuado, apenas uma pequena brecha que dê para ver sem ser vista. Na rua, o ambiente normal de Belgrave Road durante a noite. Dezenas de pessoas passando para cima e para baixo. Mapas nas mãos, malas, sacos; cada um na sua e indiferente a Sarah Monteiro. O tráfego circulava de modo incessante, apesar de não ser das ruas mais concorridas de Londres. Automóveis de todos os tipos, táxis londrinos, o 24 estacionado no ponto do outro lado da rua, na direcção de Pimlico/Grosvenor Road, largando alguns passageiros e deixando entrar outros.
Nenhum ser nem movimento suspeito. Também não o saberia distinguir no meio de tanta agitação humana, a não ser que fosse bastante óbvio. Se alguém a estivesse vigiando, não estaria com certeza vestido de negro da cabeça aos pés, como ela imaginava, com um sobretudo a cobrir-lhe as formas e fazendo de conta que lia um jornal encostado num poste de luz. Segundo os filmes de espionagem, qualquer pessoa poderia ser um espião. Até o gari, que nesse momento recolhe os sacos de lixo da rua. Ou a mulher que fala ao telefone móvel no quarto do segundo andar do hotel Hollyday Express, em frente à sua casa. Ou podiam não passar de cidadãos comuns entregues ao quotidiano, um recolhendo os sacos de lixo da rua e a outra fazendo uma chamada para algum familiar distante.
Está delirando, diz para si mesma, aplacando instantaneamente a tensão a que estivera submetida nos últimos minutos. Que estupidez. Iam mesmo vigiá-la... Você é tão importante! No entanto, algo lhe desperta a atenção quando o 24 parte levando os passageiros aos seus afazeres. Um carro negro de vidros escuros. É sempre suspeito. Assim são em todos os filmes: veículos com vidros que não permitem ver os agentes ocultos no interior, cheios de aparelhos de última geração que esquadrinham todos os movimentos, pensamentos e vontades. Pode ser alguém que veio buscar um hóspede no hotel. Será que está ali há muito tempo? Agora o lento gari já não lhe parece tão inocente, assim como a mulher no segundo andar do hotel, que nunca mais tira os olhos da rua nem desliga a porcaria do telefone. Serão agentes secretos todos eles? O carro... O carro negro de vidros escuros..., não lhe parece nada inocente, muito pelo contrário. E há qualquer coisa nele que a aflige. O que será?
Já vi esse carro, fala para si mesma em voz alta. Já vi esse carro, repete. Sem dúvida que sim, Sarah Monteiro, que agora vê desfiar diante de si os arquivos cerebrais que guardam a imagem daquele veículo escuro altamente suspeito. Se fosse um homem, nem a marca ou o modelo o ajudariam a identificar o local e a hora onde o vira pela primeira vez. Mas a memória feminina de Sarah Monteiro, fotográfica e assincrónica organizada, logo lhe mostraria quando e onde vira aquele carro estacionado do outro lado da rua: algumas horas antes, dentro do táxi londrino que a trazia do aeroporto de Heathrow. O carro que havia parado bruscamente à frente deles, e assim permanecera durante alguns instantes, sem dar sinais de vida. Depois o condutor que abriu o vidro, lançou o Sorry, mate e seguiu em frente. Era aquele carro. Sem dúvida. O que significa que pode estar estacionado do outro lado da rua há mais de três horas. O que significa que também pode não significar nada, e tudo não passar de um filme de espionagem que a carta desencadeara dentro da sua cabeça. E essa segunda hipótese, no seu entender, era a mais acertada». In Luís Miguel Rocha, O Último Papa, Saída de Emergência, 2006, ISBN 978-972-883-969-7.

Cortesia SEmergência/JDACT