quinta-feira, 22 de maio de 2014

Onze Contos de Futebol. Camilo Cela. «O senhor Teopempo é mais adepto da física do que da química; os seus futebolistas poderão estar congelados, lá isso sim, mas nos seus organismos não se detectam os mais leves indícios de formol ou outras drogas»

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Calhamaço primeiro. A Lota. O regateio
De todos os meios conhecidos, o comércio é o mais expedito para fazer fortunas.
«O senhor Teopempo Luarca Novillejo, indiano de cangas de Narcea, onde põe a mão brota ouro. O senhor Teopempo Novillejo, embora lhe chamem Pichón, tem arrojo suficiente para comprar a estrela da manhã num saldo e vendê-la, pelo dobro e quinze dias depois, a um cavalheiro português na feira de Ciudad Rodrigo. O senhor Teopempo, mais conhecido por Pichón, é armador, rotário, esclavagista e diabético. Sua senhora, D. Filonila Swan, mais conhecida por Flor de Lótus, é uma dominicana gorda, mulata e cheia de sentimento, que canta a ópera Carmen e declama Amado Nervo pondo os olhos em alvo. Às vezes, quando as senhoras saem, além de gordas, cultas, o mais prudente é abalar e dizer fiquem para aí com Deus! O senhor Teopempo, no entanto, suporta ventos e marés, porque é corajoso por natureza e dado a declamar de cor Calderón de la Barca:

Y para mí, el que es valiente
es todo lo demas, puesto
que el ánimo es don del alma
y la agilidad, del cuerpo.

O senhor Teopempo Novillejo, mais conhecido por Pichón, aprendeu no Egipto as pacientes artes do embalsamamento e, assim que um vizinho se descuida, ele vai e embalsama-o; depois, se puder, vende-o (apenas para compensar os gastos). O senhor Teopempo é dado ao regateio, e apesar de pôr um preço aos seus embalsamados, admite a tratantice: o tempero do toma lá dá cá. Segundo o seu amigo e biógrafo, senhor Zaqueo Sacristán (que também não é judeu), o senhor Teopempo amealhou uma fortuna muito considerável embalsamando futebolistas, que depois vendia em Hong-Kong ou do outro lado da cortina de ferro, conforme. O senhor Teopempo, mais conhecido por Pichón, é um tratante de nível e não um tratante de pequena cabotagem e roído por preconceitos. A Interpol, algumas manhãs, incomoda-o, mas como o senhor Teopempo tem os papéis em ordem, depressa os despacha.
Durante a II Guerra Mundial, o senhor Teopempo andou pela Gronelândia, passando frio e colhendo sabedorias sobre o frio, por exemplo: um homem em hibernação rejuvenesce em função directa do quadrado do frio que conseguir suportar, expresso em graus centígrados, dividido pela raiz quadrada do seu ângulo facial, expresso em graus, minutos e segundos. A descoberta de Teopempo, ou teorema de Luarca Novillejo, condensa-se na seguinte fórmula:


e é de grande utilidade nas indústrias cárnicas e na expedição de futebolistas para confins longínquos. O senhor Teopempo, mais conhecido por Pichón, aprendeu as suas manhas no livro intitulado Como sendo ruivo, gago e órfão, triunfei na vida e cheguei a senador pelo Estado de Nebrasca, original de Mr. Skillet, cavalheiro que foi morrer em San Bartolomé de Pinares, província de Ávila, Spain, durante a rodagem do filme Orgulho e Paixão, no qual trabalhava como figurante. Ao pobre Mr. Skillet (que em paz descanse) caíram-lhe em cima, e talvez um pouco ao vivo de mais, três moços indígenas que figuravam no lado contrário e, claro está, bateu abota, sabe-se lá se de susto. O senhor Teopempo mandou dizer-lhe umas missas e D. Filonila, a sua senhora, declamou-lhe um verso. - E o senhor acha que ainda está em moda dizer versos nos enterros? - Sei lá, homem, eu direi, eu acho que sim. O verso de D. Filonila era muito respeitoso, era o que se costuma chamar um verdadeiro verso de funeral: animula, vagula, blandula..., pallidula, rigida, nudula, etc., um verso de funeral do mais que pode haver. D. Filonila é muito espiritual e respeitadora, muito lírica e decente, não pense que não. O senhor Teopempo, mais conhecido por Pichón, importa futebolistas como quem importa motores a gasóleo, e exporta futebolistas como quem exporta citrinos e derivados. Aqui não se engana ninguém e quem quiser jogar que jogue.
O senhor Teopempo tem um barco veleiro que nunca se sabe se vai para Cádis ou para Cartagena, o seu primo, o senhor Lifardo Novillejo Marimón, que é muito dado ao sequeiro, usa bicicleta com guiador de passeio, vendo assim como a sua vida se gasta a pedalar de Pinto a Valdemoro e volta, como se não fosse nada. Nisto das tendências já se sabe que as há para todos os gostos, medidas e ressaibos. O senhor Teopempo, mais conhecido por Pichón, embora não seja de Orense, joga dominó com mestria e com um estilo muito elegante e barroco, muito poderoso e loquaz; às vezes, quando se livra do doble de seis, até parte as mesas. A juventude não tem muita explicação para o seu ímpeto, mas isso é coisa que não preocupa muito o senhor Teopempo, dado que, como bem se sabe, porque assim no-lo explica santo Ambrósio, a juventude é uma coisa suspeita mesmo quando a fidelidade é certa. O senhor Teopempo, que também foi jovem, sabe que nem tudo é fácil e nem tudo o que reluz é ouro. - Dá-me um copinho de gasosa, por causa dos gases? - Ora essa, cavalheiro, sempre às suas ordens! O senhor Teopempo é mais adepto da física do que da química; os seus futebolistas poderão estar congelados, lá isso sim, mas nos seus organismos não se detectam os mais leves indícios de formol ou outras drogas. A seriedade comercial, a longo prazo, é muito rentável e conveniente.
 - O senhor pode dar-me um palito para os dentes, se faz favor? - Ora essa, cavalheiro; um escravo às suas ordens. O senhor Teopempo, mais conhecido por Pichón, bebe o café sem açúcar e usa ceroulas para o frio não lhe subir pelas pernas como uma lagartixa. Quando se chega a certas idades pensa-se que o frio é bom e saudável para o próximo, mas não para a própria pessoa. D. Filonila cuida com muito esmero do senhor Teopempo e vigia-lhe os índices e níveis da glicosúria, para ele poder continuar a dedicar-se ao regateio. D. Filonila baixa o açúcar do sangue ao cônjuge declamando-lhe poesias de Amado Nervo, do divino jogral Amado Nervo.

Governos, em vão quereis fazer um óbice
daquilo que é um grande sinal de paz
entre os povos!

 - Caramba, que senhora! - Sim, meu bom amigo; talvez não lhe falte parte de razão. Eu também penso que D. Filonila, em certas ocasiões, se passa um pouco dos carretos. As damas propensas a dizer versos é no que dão: às vezes, parece que depende da Lua, abusam um pouco das circunstâncias». In Camilo José Cela, Once Cuentos de Futbol, 1963, Onze Contos de Futebol, Edições ASA, Porto, 1994, ISBN 972-41-1305-1.

Cortesia ASA/JDACT