segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A Filha do Barão. Célia C. Loureiro. «Em 1801, ouvira falar do negócio do “vinho do Porto”. Chegavam enormes carregamentos à Inglaterra desde que, quase cem anos antes, as duas nações tinham tomado disposições nesse sentido em Methuen»

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1805 - 1806
«(…) Estava escrita num inglês impecável, adquirido pelo barão em dez anos de estabelecimento de relações comerciais nas Índias Orientais. Lidara com outros cônsules, a maioria deles britânicos, e estabelecera relações de amizade e cooperação que o tinham ajudado a estender o seu império dos móveis. Daniel Turner, a quem dirigia aquela missiva cuidada, não era um desses homens. Daniel Turner não tinha qualquer explicação elaborada para o facto de ter adquirido, havia quatro anos, uma adega em Vila Nova de Gaia, à semelhança de muitos dos seus compatriotas ingleses. Sabia que o vinho do Porto era mundialmente apreciado, correndo os continentes por via marítima. A Europa, a América do Norte e do Sul, a África e a Ásia inclusive adquiriam aquele vinho licoroso como se de barras de ouro se tratasse. Havia relatórios sobre navios com vinho do Porto despachados para a Nova Zelândia, um ponto distante e exuberante no Hemisfério Sul. Quanto a ter-se decidido a arregaçar as mangas e a apanhar um navio para Lisboa a fim de administrar pessoalmente o movimento dessa adega, ainda menos explicações encontrava. Fora uma espécie de chamamento, esse do investimento no negócio do vinho. O intelecto de Daniel funcionava sobretudo à base de números, e cedo compreendeu que tinha jeito para multiplicar fundos.
O pai deixara-o administrar os seus negócios desde jovem, aplicando pequenas parcelas de dinheiro em sociedades locais. Devido ao entusiasmo de Daniel pelo dinheiro a circular, o pai deu por si dono de parte do jornal local, de uma pequena empresa de embarcações de pesca na Cornualha e co-proprietário de uma tipografia em Southampton. As edições bem orientadas por um Daniel de vinte anos e empreendedor, tinham voado da prateleira da pequena livraria que, dois anos depois, adquirira. Colocava os volumes da sua tipografia na montra, a reluzir atrás do vidro fosco, e não se espantava por serem os mais vendidos. Agregava-os a outras publicações, a preços especiais, e ia vendo-os a escoar.
Em 1801, ouvira falar do negócio do vinho do Porto. Chegavam enormes carregamentos do mesmo à Inglaterra desde que, quase cem anos antes, as duas nações tinham tomado disposições nesse sentido em Methuen. Portugal absorvia os panos ingleses e, em troca, Inglaterra moderava as taxas sobre os vinhos lusos que chegavam aos seus portos. Rapidamente se tornara um vinho de elite, elevado ao estatuto de licor, infiltrara-se nos círculos intelectuais de uma Inglaterra fulgurante, acendera discussões filosóficas e humedecera os lábios à fanfarronice da nobreza. Provinha de um pequeno trecho geográfico que seria facilmente tomado pelos visionários. Daí e para o mundo, garantiria estabilidade financeira a quem estivesse disposto a sujar as mãos desde o início. Daniel tomara a decisão com o olhar preso ao conteúdo amadurecido de um copo de porto. O travo a madeira de carvalho e a nozes inspirava-o, instigava-lhe a mente a rebuscar novos nichos de negócio, e a sua última ideia reluzia à sua frente, num café inglês, em rons de âmbar. O fumo dos charutos envolvia-o e, sentindo-se isolado, como, aliás, sempre se sentiria em relação a toda a classe de cavalheiros ingleses de sangue azul à qual não pertencia, decidiu ir ao encontro das raízes desse vinho e da terra que dava apoio àqueles pés de vinha». In Célia Correia Loureiro, A Filha do Barão, 1809, Marcador Editora, 2013/2014, ISBN 978-989-754-039-4.

Cortesia de MarcadorE/JDACT