quinta-feira, 5 de julho de 2018

A Cultura em Portugal. António José Saraiva. «Entre estes dois triângulos estende-se o grande planalto suspenso como duas grandes abas, de um lado e outro sistema montanhoso central (Guadarrama, Gredos, etc.) e que é limitado ao sul pela serra Morena»

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«O litoral ocidental da Península Ibérrca era verdadeiramente o fim do mundo, o finis terrae, nome que os Romanos deram a um cabo da Galiza, mas também podiam ter dado ao cabo da Roca ou ao de S. Vicente. Colocada entre os Pirenéus e a costa africana, a Espanha estava exposta às invasões do norte e do sul. Sem falar de povos pré-históricos, de um lado da Europa vieram os Celtas, os Romanos, os Suevos e os Visigodos, do outro os Fenícios, os Cartagineses e os Árabes. Do lado do Mediterrâneo, o sistema montanhoso chamado Ibérico desenha com os Pirenéus um grande triângulo percorrido pelo Ebro. Do lado atlântico aparece um outro triângulo, cujos lados são o litoral norte ou cantábrico, o litoral oeste e, por terra, uma recta imaginária que fosse de Lisboa até à fronteira das Astúrias com o País Basco; são estes os limites dos vários sistemas de cordilheiras que desde os Montes Cantábricos se vão sucedendo até ao vale do Tejo: o Maciço Galaico, os Montes Leoneses, e o prolongamento em direcção ao mar do sistema central da Meseta, que é a serra da Estrela e adjacências.
Entre estes dois triângulos estende-se o grande planalto suspenso como duas grandes abas, de um lado e outro sistema montanhoso central (Guadarrama, Gredos, etc.) e que é limitado ao sul pela serra Morena. É a Meseta Central, onde se situa o centro geométrico da Península. Nas duas abas da Meseta estão as duas Castelas. Para além da serra Morena está a Andaluzia com os seus pomares. A leste, com o rico vale do Ebro e os portos activos sobre o Mediterrâneo, ficam o Aragão e a Catalunha. Nas serranias rochosas do Noroeste, com as suas praias desertas, estão a Cantábria e a Galiza, onde nasceu Portugal.
A Meseta castelhana, amuralhada nos seus três lados, sob um céu ardente, estava destinada a dominar ou a perecer. O Noroeste ficava isolado, país de montanheses, com uma franja de pescadores, condenados a um duro trabalho numa terra ingrata, ou à emigração. Quanto à Andaluzia, foi sempre uma tentação para os viandantes do Norte ou do Sul, o Jardim das Hespérides. Na zona oeste, o litoral oferecia um trânsito fácil no sopé das serras, ao longo do mar, e isso permitiu que os montanheses do norte do Tejo descessem à planície ao sul deste rio, onde se prolonga a Meseta castelhana, até ao litoral fronteiro à África, continuação da Andaluzia. Por virtude desta estrada natural, onde depois se implantou uma grande estrada romana e uma via de caminho de ferro, Portugal, cujas raízes estão nos maciços isolados do Noroeste, pôde prolongar-se ao longo do litoral, criando uma espécie de apêndice; e o Tejo, fronteira geográfica, deixou de ser uma fronteira histórica. Mas a franja do litoral liga-se com a zona semidesértica da Meseta castelhana.
Lisboa, no cruzamento da estrada litoral com um rio profundamente navegável, situada no fim das montanhas e frente à planície do Sul, viria a tornar-se a capital de uma nova entidade política, um pouco híbrida, já em parte desprendida das raízes asturo-cantábricas e galegas. Considerando a zona onde actualmente se encontram Portugal e a Galiza, vê-se imediatamente que está dividida por rios paralelos, que a separam em fatias. O Minho separa a antiga Galiza romana em duas partes, das quais a do sul, só, é actualmente portuguesa. O Douro marcava a fronteira entre a Galiza e a Lusitânia romanas. e durante muito tempo, na chamada reconquista, foi o limite da terra cristã. Entre o Douro e o Tejo estão as Beiras, com as suas serras oblíquas à costa, zona de transição entre o Norte e o Sul. A orientação das serras determina o curso do Mondego e estabelece duas zonas: uma, ao norte da Estrela, leva a Coimbra, que é uma capital regional natural, entre o Mondego e o Douro. Outra, no sul, conduz, por estradas naturais, até Lisboa: é a Beira Baixa. Esta província tem uma função central, porque é ela que estabelece a ligação, pelo interior, entre o Norte e o Sul. Na medida em que tem a Beira Baixa como hinterland pelo interior, ao mesmo tempo que se encontra na margem do Tejo e na estrada natural, Lisboa tem uma posição chave em relação ao resto do País, mas especialmente até ao Douro. Finalmente, o Tejo separa o Sul do Norte; mas as serras algarvias abrem uma concha sobre o mar que tem pouco que ver com o Alentejo». In António José Saraiva, A Cultura em Portugal, Teoria e História, Gradiva Publicações, 1994, 2007, ISBN 978-972-662-372-4.

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