domingo, 15 de março de 2015

Poesia. Erotismo. Natália Correia. «Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. A vida é coisa tão séria, os seus problemas são tão graves que ninguém assiste o direito de rir. Por vezes, a alegria é a forma comunicativa da estupidez»

jdact e wikipedia

Cosmocópula
«Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras.

II
O corpo é praia
a boca é a
nascente
e é na vulva que
a areia é mais sedenta
poro a poro vou
sendo o curso de
água
da tua língua
demasiada e
lenta
dentes e unhas
rebentam como
pinhas
de carnívoras plantas
te é meu ventre
abro-te as coxas e
deixo-te crescer
duro e cheiroso como o
aloendro»
Natália Correia, in ‘Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, 1966’


O poeta e as víboras
«Baile de corpos intermédios
com luas mortas nos braços
sem desenlace e sem consequência.

Dança da solidão de mim e de outros
comigo no centro ignorada.
Bailado das palavras
com suportes de morte imediata.

Rio sem águas e sem fundo
com margem numa boca emudecida.
Silvo de serpentes que rastejam
famintas para o vértice da vida
onde me aparto de cansaços inúteis.
Natália Correia, in ‘Biografia, segunda parte de Poemas, 1955

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